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sábado, 8 de fevereiro de 2014

O Projeto que virou pintura

O Colégio Universitário Geraldo Reis - COLUNI/UFF desenvolve todos os anos o projeto Pibiquinho. Atrelado ao PIBIC, concede bolsas a alunos que participam de projetos de pesquisa idealizados pelos professores da instituição. Como professora de História do COLUNI, orientei o projeto Narrativas Multimidiáticas junto a alunos do segundo segmento do Ensino Fundamental. Abaixo, compartilho com você um texto meu que faz um balanço afetivo sobre a experiência, parte do E-Book lançado em parceria com o projeto Narrativas Infanto-Juvenis, coordenado pela professora Aldaléa Figueiredo.



O projeto que virou pintura


Um dia sonhei que a escola era como uma tela de pintura coletiva, todos pintavam com o dedo, misturando as tintas e os traçados. Não tinha essa coisa de diferenciar se era professor, aluno ou funcionário, todo mundo pintava porque a escola era todo esse mundo. E surgiam arco-íris, sóis de diversas tonalidades, pássaros, corações e outros desenhos que a gente entende mas que ainda não deram nome. Um dia sonhei essa escola, e como não esquecia passei, pouco a pouco, a pintar essa tela por onde eu ia. Essa pintura, me trouxe até aqui.
     Você já deve ser percebido que educação e arte podem se misturar, não é? Para acontecer, a arte precisa de caminhos para comunicar, na verdade, toda informação precisa de um caminho para chegar até alguém. Esse meio por onde as informações passam chamamos de mídia, ela pode ser uma tecnologia como uma caneta ou um celular, e pode também ser o nosso próprio corpo. De tanto pensar o caminho da informação que podia virar arte, pensei num projeto que poderia fazer com que a nossa pintura fosse multimidiática. Como já dizia um sábio “o ser humano não é uma ilha” e busquei ajuda para fazer a ideia acontecer.
     Com a professora Aldaléa, pensamos que as narrativas não são apenas escritas e nesse caminhar surgiram muitas ideias e vontades. Da experimentação audiovisual, encontramos as animações. E foram muitas, vimos as de massinha, com recortes, outras com imagens cortadas fazendo um stop-motion e até com peças de lego. Ver nos deixava curiosos e nada melhor do que fazer para aprender! Das conversas passamos aos story-boards, que eram desenhos dos filmes que gostaríamos de fazer. Alguns viraram filme, outros não. Porque a gente aprendia que o mais importante não era o filme pronto e sim a forma como caminhávamos até ele.
     Aos poucos fui percebendo que nossos encontros semanais na Sala de Leitura não acabavam quando íamos embora, a impressão era de que havia eco, um eco bom de ouvir. Quando eu chegava no 7o ano como professora, para falar da África antiga ou ainda do Feudalismo, haviam sorrisos diferentes. Uma cumplicidade entre os alunos do projeto se construía e contagiava o restante da turma. Era como se trouxéssemos os nossos processos de descoberta para a aula cotidiana. E aí não se sabia mais onde começava a aula e onde terminavam os encontros do projeto Narrativas Multimidiáticas.

     A nossa pintura que começou ali na Sala de Leitura com alguns alunos, professores e bolsistas de iniciação à docência está cada vez maior. Aquela primeira tela ficou pequena, então talvez precisemos de muitas outras formas de telas e pintores. Se você, leitor, chegou até aqui, é possível que já esteja com os dedos sujos de tinta, é que isso de pintar a vida acaba saindo do controle da gente.

sábado, 6 de abril de 2013

Eu (não) sou Professora - dois relatos

Olha como são as coisas, eu estava escrevendo um post sobre como me tornei professora. Eis que vejo uma postagem de uma amiga falando justamente sobre a decisão de não ser mais professora. Abaixo os dois relatos, quase antagônicos e que nos fazem pensar sobre o ser docente no Brasil de hoje:


Por Ana Beatriz Domingues


Eu nunca quis ser professora de História. Não brincava de escolinha quando criança, achava uma bobagem. É certo que gostava da professora Helena de Carrossel, mas eu professora? Não, não, obrigada. Queria era ser médica! Antes disso, quis muito fazer Cinema, achava Chaplin incrível e depois de "Cinema Paradiso" me apaixonei. Eu e a película. Mas minha mãe temendo o desemprego "Vai viver de quê?" desencorajou e resolvi que não. Medicina, m e d i c i n a, jaleco branco com nome bordado feita Doutora. Agora sim, uma profissão valorizada, futuro garantido? Tinha certeza, estudava numa escola de elite paulistana, e ora, quem lá achava que ser professor era algo que desse gosto? A professora de História, na escola, era apelidada de comunista, vejam só que inovador. Falavam que seu carro era vermelho, até sua calcinha devia ser vermelha, os indícios então ficaram mais fortes quando se apresentou em sala de posse de um caderno...vermelho! Os filhos dos filhos da década de 60 falavam em Revolução, mas o nome era Ditadura. E aí, após três anos de curso pré-vestibular veio um quase, quase estudante de Medicina. Mas e a História? Nesse meio tempo, quer dizer, nessa quase toda vida ela vinha me seduzindo, piscava o olho de canto e falava palavras nem tão doces ao pé do ouvido. Foi quanto então cedi, não aguentei, troquei o jaleco imaginário pela...pesquisadora, h i s t o r i a d o r a. Vai dizer que não é bonito? A realidade, que eu ainda não sabia, é que por questões práticas, estudar História acaba levando você a ser professora. Meio que resignada com a ideia entrei numa sala de aula para um projeto de extensão. E aí bastou uma tarde, apenas uma tarde para que eu fosse invadida por uma sensação muito boa, de um prazer diferente. Voltei para casa sem entender mas a sensação ainda ecoava, a vontade de retornar a sala de aula era grande e só aumentava. O tempo passou e numa quase mágica, sem explicação racional me encontrei com meu Eu professora, eu encontrada em mim. Mas se o tom parece romântico é para inserir mais poesia à narrativa. Ser professor não é fácil, pelos motivos que muita gente já sabe. O mais difícil, e o que talvez me apaixone mais, é justamente a tensão que permeia o crescimento humano, dissonâncias essas que é preciso estar preparado e as vezes não se está. Ser professor tem um quê de Pandora.  



Por Mariana Bedran Lesche

  Este ano decidi pedir exoneração da minha matrícula na prefeitura de Teresópolis, isto depois de alguns meses afastada por uma licença médica. Não lembro de ter tido que tomar uma decisão mais difícil que essa. Largar um emprego público com um salário razoável pra viver de bico e não saber o que vai ser da minha vida nos próximos meses, quem dirá nos próximos anos. Mas a falta de perspectiva incrivelmente pode ser um lugar de felicidade. É certamente melhor do que a certeza de ficar infeliz por mais sei lá quanto tempo.
  Em sala de aula, eu simplesmente perdi qualquer controle de mim mesma, não tinha mais ideia do que estava fazendo. Virei uma máquina de cumprir obrigações (muito mal cumpridas, por sinal) e de reagir ao que acontecia à minha volta. E como ninguém me ensinou a ser professora nem me disse como reagir às coisas que eu encontrei, eu reagia a tudo das formas mais estúpidas possíveis. Virei aquela professora histérica que só sabe gritar e reclamar.
  Eu nem sabia por que tava ensinando aquelas coisas, só conseguia pensar que aquilo não ia fazer a menor diferença na vida dos meus alunos, que eles iam esquecer tudo de qualquer jeito mesmo. E enquanto eu pensava em quão estúpido era aquilo tudo, pensava também em quão estúpido era o meu papel ali, mandando as pessoas pararem de falar, controlando quem podia ir ao banheiro, dando ordens. Quem sou eu pra dizer quando alguém pode ou não mijar? É tão absolutamente ridículo que não dava pra não me sentir mal com cada ordem e cada regra que eu tinha que impor. E era tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo que eu nem conseguia lembrar das coisas que eu mesma tinha decidido. Tinha que lembrar da chamada, saber se já tinha deixado algum aluno sair de sala, lembrar de anotar nome, tirar ponto, cobrar o que eu tinha pedido na aula anterior, lembrar das exigências que eu mesmo tinha feito, que a direção fazia, lembrar dos malditos nomes e do que eu tinha planejado pra aula. E com isso tudo quem é capaz de pensar no que tem que explicar na aula? Quem consegue falar sendo interrompido a cada meia frase e com tanta coisa na cabeça?
  Logo estar em sala virou uma tortura, o estresse ia aumentando, a irritação virava raiva. Mesmo que eu adorasse os alunos, eu começava a ter raiva de todos eles. E ainda tinham os alunos escrotos. A grande maioria era só bagunceira, inquieta, o que se espera de crianças e adolescentes. Não querer assistir aulas nada mais é do que um sinal de sanidade nas circunstâncias. Mas tinha os filhos da puta, aqueles que a gente via no olhar que eram babacas de propósito, que sacaneavam tudo mesmo. Em algum momento eu comecei a passar todas as aulas olhando pra eles e pensando em várias formas possíveis de fazê-los sofrer. Me via batendo neles, torturando, matando, estraçalhando, queria ver os miolos deles espelhados na parede e o sangue jorrando. Imagens dignas de qualquer filme de terror. Eu era puro ódio.
  Pra completar, vinha a sala dos professores. Todo mundo cansado, frustrado, reclamando. Pessoas maravilhosas, mas em sua maioria já exaustas e pensando na aposentadoria. Nunca uma conversa que animasse, um relato de experiências revigorantes. Cachorros, gatos, papagaios, filhos, maridos, casas e novelas. E as reclamações, a descrença naquilo tudo que estávamos fazendo. E a maldita TV ligada!
  Eu terminei a faculdade frustrada e desanimada com a História, mas acreditando na educação. Pensando que tinha muita coisa errada na forma como o ensino é estruturado, mas que tinha muita coisa importante a ser feita. Decidi largar me sentindo derrotada, frustrada comigo mesma por não ter conseguido ser a professora que meus alunos mereciam.
  Agora, estando mais feliz e olhando pra tudo isso com mais calma, a derrota não parece tão devastadora. Não era a hora certa pra mim, não tive as energias que precisava, talvez nem seja a profissão certa pra mim. Mas eu adoeci porque a escola é um lugar que deixa doentes a todos, ou quase todos. Tenho uma admiração imensa pelos amigos e colegas que conseguem fazer ótimos trabalhos em meio a tanta coisa fudida e errada. Quem sabe um dia...
  Quando tirei a licença em setembro e depois larguei em fevereiro, não quis conversar com ninguém da escola sobre o assunto. Era doloroso demais. Saí como se nada tivesse acotecido e provavelmente deixei a maioria espantada. Queria que tivesse sido possível contar isso tudo e tantas coisas mais na época. Não foi. Agora que tudo está mais feliz pro meu lado, já dá pra falar no assunto.
  Meus alunos e colegas, só queria dizer o quanto gosto de vocês e o quanto foram importantes para mim. Saí da escola, mas vocês continuam no meu coração (desculpem, momento piegas). Apesar de maluca e estressada, espero que no tempo que estive aí tenha dado para perceber o carinho que sinto por todos. Beijos e abraços! E até a próxima visita!

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