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quinta-feira, 4 de junho de 2009

O Incêndio do GRAN-CIRCUS Norte Americano e a questão da memória.

Vamos aqui tratar de uma página traumática e ainda presente fortemente na memória social de Niterói: O incêndio do GRAN-CIRCUS Norte Americano. Os anúncios diziam que era o maior e mais completo circo da América Latina – tinha cerca de sessenta artistas, vinte empregados e 150 animais. O dono do circo, Danilo Stevanovich, havia comprado uma lona nova, que pesava seis toneladas e seria de nailón - detalhe que fazia parte da propaganda do circo.


A tragédia deu-se na tarde do dia 17 de dezembro de 1961 e a comoção foi geral. Praticamente toda a imprensa nacional voltou seus olhos para a tragédia, que teve por volta de 300 vítimas.A falta de um lugar de memória para a tragédia e seus heróis salta aos olhos, daí podemos inferir uma série de questões. Por exemplo: O acesso dos espaços periféricos a um local de memória, a importância de episódios circunstanciais e acidentais na constituição de identidades, o momento de inflexão social e política pelo qual o país passava – e a utilização da tragédia pela mídia, a normatização das atividades circenses após o acidente e etc. A culpa do desastre caiu sobre um ex-funcionário que chegou a dizer ter provocado o mesmo por vingança após ter sido demitido no processo de montagem do circo, mas não podemos ser ingênuos e tomar tal declaração como livre de pressões. O fato é que “Dequinha” acabou por ser culpabilizado e, após ter sido diagnosticado retardamento metal, teve uma pena de dez anos de reclusão, e mais seis anos de internação em manicômio judiciário como medida de segurança. O caso teve repercussão internacional. O papa João XXIII declarou-se sobre o ocorrido e o governo dos EUA doaram 300 metros quadrados de pele humana para o tratamentos dos feridos. Como afirmou a historiadora Ana Mauad:


Um acontecimento que comoveu toda uma nação e mobilizou ajuda de diferentes partes do país, inscrevendo-se na memória coletiva de diferentes maneiras: pela dor da perda, pela comoção social, pelo mito do incêndio, pelo trauma coletivo, pelo desenvolvimento de técnicas de cirurgia plástica, pela fundação de um novo cemitério em São Gonçalo, pelo aparecimento do profeta do Gentileza (pregador religioso e personagem urbano) - enfim, por uma série de imagens que se inscrevem pela memória na história da cidade de Niterói[1].”


Podemos mais uma vez afirmar que este acontecimento trágico traz uma plêiade de questões, principalmente se refletirmos pelo viés da micro-história. As múltiplas reações mostram uma série de comportamentos. Um trabalho acurado pode mostrar-nos muito sobre vidas então desconectadas, comuns. No plano dos homens que tomaram maior destaque temos três figuras emblemáticas: O cirurgião plástico Ivo Pitanguy que desenvolveu um trabalho social importantíssimo e trouxe a cirurgia plástica para o plano do social. O médium Chico Xavier, que também buscou dar conforto aos envolvidos com seu trabalho espiritual, e o mítico e emblemático “profeta Gentileza” (José Datrino), que de rico empresário passou a ser um andarilho que pregava a paz através dos muros do Rio de Janeiro.



http://www.historia.uff.br/labhoi/files/images/circo_007.jpg


http://www.historia.uff.br/labhoi/files/images/circo_008.jpg


http://www.historia.uff.br/labhoi/files/images/circo_017.jpg

Niterói só voltou a ter uma nova visita de um circo em 1975, quatorze anos após o incêndio. Muitas questões, inclusive judiciais, permanecem abertas, mas a principal ferida foi emocional, foram muitas vidas perdidas. Uma bela tarde de verão com a família transformou-se em um pesadelo. É um dever para todos nós que estudamos história aferirmos também sobre os sentimentos vividos, os impulsos e a cognição dos homens que viveram os fatos passados.


O profeta gentileza:

http://vidaviver.zip.net/images/ProfetaGentileza.jpg


http://api.ning.com/files/7dHbU0BRJA7W1cLsU**mhltapFkgAjU-c9dOprhUfxqtnfEEiIYaXKr5KoCD-ivg1RMQZL*y*-*MMbleImkx6d1TGTtm1dfn/gentileza3.jpg

Por Thiago Rodrigues da Silva.


[1] www.rj.anpuh.org/Anais/2002/Comunicacoes/Mauad%20Ana%20M2.doc MAUAD, Ana Maria. Palavras e Imagens de um acontecimento: o incêndio do GRAN CIRCUS Norte-Americando, Niterói, 1961. X Encontro Regional de História Anpuh-Rio.


Links

Imagens da tragédia (presentes nesta postagem):

http://www.historia.uff.br/labhoi/?q=image/tid/76


Na Wikipedia:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Trag%C3%A9dia_do_Gran_Circus_Norte-Americano


Outros:

http://grancircusincendio.blogspot.com/